| MUSEUS E COLEÇÕES ZOOLÓGICAS |
Número de Coleções Zoológicas
No Mundo: milhares
No Brasil: centenas
No estado de São Paulo: >45 |
Museu de Zoologia da USP |
Foto: Mário de Vivo
O estudo da biodiversidade compreende o reconhecimento das espécies
de plantas e animais em uma dada região, sua descrição
e classificação.
Inclui também o estudo de ecossistemas naturais e das populações
que os compõem, bem como dos procedimentos necessários à
sua preservação futura. Esse estudo pode ser desenvolvido
visando ao conhecimento das causas imediatas dos fenômenos observados,
por exemplo, através da pesquisa ecológica. Por outro lado,
o estudo da origem evolutiva da biodiversidade ou das causas distantes
de processos e fenômenos também contribui significantemente
para nosso conhecimento nesse campo.
Em qualquer nível ou abordagem que se pretenda, as coleções
zoológicas possuem um papel central no que se refere ao estudo
da diversidade animal.
Tipicamente, coleções zoológicas são conjuntos
de animais coletados, geralmente, em ambientes naturais e preparados especialmente
para que permaneçam em condições de estudo por centenas
de anos. Essas coleções podem também abrigar produtos
da atividade animal, tais como ninhos e pegadas. No passado, as coleções
zoológicas eram vistas pelos naturalistas quase como coleções
de selos, em que espécies raras possuíam grande valor e as
comuns quase nenhum. Além disso, grande parte do acervo era destinado
à exposição pública, visando a exibir o espólio
de terras exóticas, tributo do poderio colonial.
Embora ainda hoje as exposições públicas dos museus
de história natural em todo o mundo sejam importantíssimas,
no sentido de expor a diversidade biológica, e as espécies
raras sejam ainda valorizadas cientificamente, o conceito moderno de uma
coleção zoológica é bastante diverso. As coleções
zoológicas são um acervo de espécimes que funcionam
como uma amostra da diversidade existente no mundo real; espécies
raras e comuns são igualmente partes dessa amostra, a partir da
qual são feitas inferências sobre a real diversidade biológica.
Para que se compreenda a importância das coleções
zoológicas é necessário conhecer sua estrutura básica,
como são mantidas e que usos se podem fazer delas.
O primeiro passo na criação e estruturação
de coleções zoológicas é a coleta de
espécimes. A coleta é realizada por biologistas ou coletores
profissionais em áreas (localidades) escolhidas, geralmente,
por serem desconhecidas zoologicamente, por conterem diversidade biológica
significativa, ou por se suspeitar que abriguem espécies que permitam
esclarecer algum problema biológico relevante. Os coletores utilizam
diferentes métodos no campo para obtenção de animais,
dependendo do grupo em estudo. A seguir, os indivíduos (ou colônias)
obtidos são preparados para se evitar sua degradação
- essa preparação pode ocorrer ainda no campo ou pode ser
completada em laboratório.
No laboratório, um especialista examina o material obtido e procede
à sua identificação, ou seja, tenta-se atribuir
aos indivíduos ou colônias coletados o nome científico
apropriado. Nesse trabalho, o especialista é freqüentemente
capaz de reconhecer se existem espécies novas para a ciência
em meio ao material coligido. Passa-se então à fase de tombamento
do material em um catálogo da coleção. No caso de
serem obtidos numerosos exemplares de uma mesma espécie (como no
caso da coleta de milhares de indivíduos de cupins diretamente do
cupinzeiro), os espécimes são tombados conjuntamente em lotes;
casos sejam obtidos apenas poucos indivíduos por espécie
(como freqüentemente ocorre com aves e mamíferos), são
tombados individualmente. Assim, a coleção irá
finalmente possuir espécimes agrupados em lotes ou distinguidos
individualmente, numerados, acessíveis aos pesquisadores. É
importante ressaltar que, com pouquíssimas exceções,
não existem espécies em demasia nas coleções,
uma vez que qualquer material considerado excedente é sempre excelente
material de troca, pela qual se pode obter espécimes de táxons
que a coleção não possui, aumentando seu valor científico.
O material estudado, então, poderá conter novas espécies.
Essas são descritas por especialistas, em publicações
científicas de ampla divulgação. Na maioria das vezes,
um dos espécimes da coleção é escolhido como
holótipo:
o espécime que deverá estar ligado indefinidamente ao nome
proposto para a nova espécie. Outros exemplares da mesma espécie
utilizados e publicados na descrição da nova espécie
serão designados parátipos. Assim, uma coleção
zoológica conterá, quase sempre, um grande número
de espécimes ordinários, bem como alguns espécimes-tipo:
holótipos,
parátipos e outros não mencionados.
Assim, ao longo do tempo, a coleção irá conter
espécimes provenientes de diversas localidades dentro da área
de escopo da coleção. Não é incomum que os
espécimes provenham de regiões tão completamente alteradas
pela atividade humana que praticamente não existam ali organismos
silvestres. Além disso, a coleção zoológica
deverá conter informações sobre os ambientes e hábitos
dos animais coletados, anotados pelos coletores de campo. Como o número
de espécimes e localidades representados em uma coleção
é extremamente variado - dependendo da história do estudo
do grupo zoológico, a facilidade de captura, o custo de obtenção
de espécimes e de outros fatores -, as coleções zoológicas
sempre serão amostragens localizadas e restritas da diversidade
biológica. Isso é verdadeiro mesmo para as maiores coleções
zoológicas do planeta. Entretanto, limitadas como são, as
coleções zoológicas são a fonte mais importante
de informações sobre quantas espécies existem,
como
são essas espécies e onde existem. Sem esse tipo
de dados, estaríamos ainda na idade da pedra do estudo da Biodiversidade.
Em termos práticos, a coleção zoológica
utilizada por um especialista é a maneira mais segura para que outros
cientistas (incluindo ecólogos, agrônomos, pesquisadores de
saúde pública) possam obter identificações
seguras das espécies com que trabalham, além de ser o lugar
ideal para depósito de material testemunho de suas próprias
pesquisas. A partir das coleções zoológicas, ecólogos
podem comparar diferentes áreas quanto à diversidade de organismos
ali encontrados; podem testar, através de dados biométricos
obtidos dos espécimes, hipóteses sobre padrões de
ocupação de nichos; podem ainda, utilizando os dados sobre
os ambientes onde os espécimes foram coletados, fazer inferências
sobre preferências de hábitats pelas diferentes espécies.
Já os zoólogos interessados no estudo da evolução
animal podem estudar a anatomia dos espécimes e elaborar hipóteses
sobre suas relações de parentesco. Além disso, como
o conhecimento da diversidade animal está em constante revisão,
devido tanto ao aumento das amostras disponíveis quanto à
utilização de novos paradigmas científicos, os zoólogos
podem examinar as séries de espécimes depositados nas coleções
zoológicas e reavaliar a composição das espécies
de grupos estudados anteriormente em condições menos favoráveis.
Tais estudos freqüentemente modificam nosso conhecimento sobre o número
de espécies em um determinado grupo, sua morfologia e regiões
de distribuição. Podem ainda estudar os padrões de
distribuição geográfica reconhecíveis pela
sobreposição de distribuições coincidentes
e propor hipóteses biogeográficas. Biólogos moleculares
podem também extrair amostras dos espécimes e utilizar o
material para seqüenciamento de DNA ou RNA, contribuindo para o conhecimento
da evolução dos diferentes grupos.
As coleções zoológicas tradicionais e bem estruturadas
são, entretanto, mais que o simples conjunto de espécimes
e especialistas. Incorporam vastas bibliotecas e diversos setores
de apoio. Minimamente, estes incluem setores de taxidermia e preparação
de espécimes, setores de documentação científica,
com técnicos especializados.
Além disso, mantêm revistas científicas institucionais,
com pessoal de apoio editorial.
A incorporação de equipamentos modernos e especializados,
como microscópios eletrônicos de varredura e seqüenciadores
de DNA, freqüentemente multidisciplinares, envolve também pessoal
especializado adicional. Material e estrutura de coleta de uso comum
exige um setor e pessoal de apoio especializado. Finalmente, um setor devotado
à criação e manutenção de uma exposição
pública é comum em grandes instituições
e também emprega pessoal especializado.
Resumindo, as coleções zoológicas são centrais
no estudo da diversidade animal, podendo permanecer em bom estado por séculos.
Os acervos biológicos nelas contidos representam amostras significativas
da diversidade, para estudo por especialistas em diversos campos da pesquisa
biológica, aplicada ou básica. A manutenção
de exposição pública representa uma ponte necessária
e conveniente entre a pesquisa e a sociedade.
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