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Uma singela homenagem a Maria Cláudia Marx Young

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Falecida em 19 de fevereiro de 2026, a pesquisadora teve importância central na construção da Rede BioProspecta, dentro do Programa Biota/Fapesp

Por Vanderlan da Silva Bolzani – A partida de Maria Cláudia Marx Young deixa um silêncio e uma tristeza profunda para todos que a conheceram. Dra. Claudia, que para os amigos e colaboradores era simplesmente Claudinha, era casada com Anibal Young Elespuru, peruano, engenheiro, formado na EPUSP na Escola Politécnica da USP. Deixa um filho, Jorge Luiz Marx Young, 42 anos, biólogo, também pesquisador. Mineira, nasceu em Teófilo Otoni, MG, no dia 22 de março de 1944, filha de Edgar Luiz Marx e de Dalva Guedes Marx e tinha 04 irmãos. Estudou no Colégio Normal São Francisco, na mesma cidade, e graduou-se em Química pela Universidade Federal de Minas Gerais em 1968.

Maria Cláudia Marx Young e Vanderlan da Silva Bolzani

Claudinha foi pesquisadora do antigo Instituto de Botânica da Secretaria de Meio Ambiente, hoje parte do Instituto de Pesquisas Ambientais de São Paulo. Nesta instituição construiu sua trajetória de pesquisadora, marcada pela elegância e seriedade intelectual, características de sua personalidade, e deixou um legado importante para a química de produtos naturais como marcadores taxonômicos de espécies vegetais. Sua atuação no IPA foi mais que institucional, foi formadora. Orientou jovens pesquisadores, fortaleceu grupos de pesquisa e contribuiu para consolidar a química de produtos naturais como ferramenta essencial para compreender a natureza. Também participou ativamente da criação da Rede BIOprospecTA, em 2003, uma sub-rede do Programa Biota/Fapesp, focada especificamente na bioprospecção, bioensaios e uso sustentável da biodiversidade.

Nos conhecemos no início do meu doutorado no IQ/USP e eu fiquei encantada com o seu entusiasmo pela quimiossistemática, linha de pesquisa que estava sendo implantada pelo nosso orientador, o Prof. Otto Richard Gottlieb. Tendo realizado meu mestrado sobre um único diterpeno, de estrutura inédita na classe dos clerodânicos, conheci a Claudinha já envolvida com os grandes estudos que o Prof. Otto iniciava naquele tempo em parceria com o Prof. Massayoshi Yoshida, dedicados às pesquisas fitoquímicas e aos táxons Lauraceae e Miristicaceae, visando lignóides, em especial as neolignanas.

Era um estudo teórico, embasado em dados numéricos calculados a partir de ligações carbono-carbono e dos substituintes usuais, além do uso de valores de oxidação para identificar e separar a complexidade molecular de todas as classes de produtos naturais nos táxons onde ocorrem. A Claudinha, pioneira, fez seu doutorado sobre a “Evolução de Alcaloides Benzilisoquinolínicos em Magnoliiflorae”, onde colaborou de maneira efetiva nesta pesquisa inédita no Brasil e que levou o Prof. Otto ser indicado ao Prêmio Nobel de Química, em 1999.

O entusiasmo e excelência do Prof. Otto nos contagiou. Claudinha começou a compilar todos os dados sobre as espécies que acumulavam os alcalóides benzilisoquinolínicos. Já eu, animada com a complexidade molecular dos alcalóides indolo-terpênicos de Apocynaceae, Lauraceae e Rubiaceae, deixei a fitoquímica clássica e iniciei meus estudos de doutorado com a ordem Gentianales, onde estes táxons, botanicamente, estão classificados. Estas pesquisas são parte do livro publicado em 1982 pelo Prof. Otto, chamado “Evolução micromolecular, sistemática e ecologia”, um marco para este campo de estudo.

A partir daí, a Claudinha abraçou a quimiossistemática visando contribuir para o entendimento molecular das angiospermas. Foi assim que estabelecemos uma colaboração rica e cheia de grandes realizações, incluindo artigos em periódicos importantes, participação em eventos internacionais e nacionais.

Fomos a Bruxelas e Hannover, sempre acompanhando o Prof. Otto, e lá fizemos nossas primeiras conferências e apresentações fora do Brasil. Claudinha teve participação na pesquisa de minha tese de doutorado, sobre a nova classificação taxonômica para Rubiaceae. Essa pesquisa foi apresentada em congressos sobre Rubiaceae (em especial no International Symposium on Rubiaceae, no National Botanic Garden of Belgium) e tornou o estudo dos alcalóides indólicos em angiospermas a base química para a revisão taxonômica proposta para as Rubiaceae pelo Prof. Elmar Robrechet, um dos maiores especialistas no táxon (entre 1988 e 1994).

Vários trabalhos foram publicados e um livro editado ao longo dessas pesquisas. Nossas teses até hoje utilizam informações valiosas reveladas não apenas pelos produtos naturais e estruturas, mas nas relações filogenéticas e na beleza invisível da biodiversidade.

Na dor da despedida, permanece a gratidão. Gratidão por sua amizade, por sua parceria científica, por sua presença luminosa. A ciência brasileira perde uma pesquisadora; nós perdemos uma amiga querida. A sua trajetória permanecerá como referência, como inspiração e como promessa de continuidade, porque na química da vida há ligações que não se rompem. Assim, acredito que a nossa Claudinha além de contribuir como profissional da ciência deixa muitas saudades, um sentimento nobre, pois, só sentimos saudades de quem amamos muito. Descanse em paz amiga querida e colaboradora excepcional.

Vanderlan da S. Bolzani

IQ UNESP, Araraquara, SP