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Indicação de criacionista para a presidência da agência brasileira de educação superior agita cientistas

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O artigo publicado em 26 de janeiro analisa a indicação de Benedito Neto para a presidência da Capes e a preocupação da comunidade científica com os rumos da educação superior no Brasil. O Artigo original pode ser conferido em inglês no site da Science: https://www.sciencemag.org/news/2020/01/brazils-pick-creationist-lead-its-higher-education-agency-rattles-scientists

Indicação de criacionista para a presidência da agência brasileira de educação superior agita cientistas

Por Herton Escobar

São Paulo, Brasil – A indicação de um defensor do criacionismo para a presidência da agência que coordena os programas de graduação brasileiros preocupa os cientistas – mais uma vez – com a imposição da religião nas políticas científicas e educacionais.

No último sábado a administração do presidente Jair Bolsonaro nomeou Benedito Guimarães Aguar Neto para a presidência da agência, conhecida como CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Aguiar Neto, que é graduado em engenharia elétrica, já foi reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, uma universidade privada de cunho religioso no país. Ele defende o ensino o estudo do Desenho Inteligente (DI), um produto do criacionismo bíblico que argumenta que a vida é muito complexa para ter evoluído de acordo com a Teoria da Evolução de Darwin e que, portanto, necessitaria um desenhista inteligente.

Cientistas estão reprovando a escolha. “É completamente ilógico colocar uma pessoa que promove ações contrárias ao consenso científico numa posição de administração que é, essencialmente, de educação científica” disse Antonio Carlos Marques, biólogo evolucionista do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.

A indicação causa “insegurança”sobre como a CAPES dará forma aos programas de educação, diz Carlos Joly, pesquisador da área de biodiversidade na Universidade Estadual de Campinas.

A CAPES é uma agência federal central dentro do Ministério da Educação. É responsável por regular, supervisionar e avaliar todos dos programas de graduação das universidades brasileiras, e financia milhares de bolsas de estudos para estudantes de mestrado e doutorado. Também financia chamadas de pesquisa e promove a formação de professores do ensino fundamental e médio.

Aguiar Neto foi citado recentemente num comunicado de imprensa da Universidade Mackenzie dizendo que o Desenho Inteligente deveria ser introduzido no currículo da educação básica brasileira “como um contraponto à teoria da evoluçõa” e, desta forma, o criacionismo poderia ser sustentado por “argumentos científicos”. Ele fez esse comentário no início do 2o Congresso em Desenho Inteligente, que aconteceu no Mackenzie em outubro de 2019. O evento foi organizado pelo Núcleo de Pesquisa Mackenzie em Ciência, Fé e Sociedade, chamado de Discovery Mackenzie e criado pela Universidade em 2017 para espelhar o Discovery Institute de Seattle, que também promove o Desenho Inteligente.

Aguiar Neto foi reitor do Mackenzie desde 2011. Na CAPES ele substitui Anderson Correia, que agora é reitor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), uma escola de elite de engenharia, conectada à Força Aérea Brasileira.

Esta é a segunda vez no governo Bolsonaro que as visões criacionistas de seus nominados viram uma questão. Em janeiro de 2019, Damara Alvez, a recém nominada ministra da mulher, família e direitos humanos foi criticada por falar em um vídeo em 2013 que as ingrejas evagélicas brasileiras tinham perdido influência na sociedade ao deixar que cientistas “tomassem o controle” do ensino da evolução no Brasil. Os cristãos evangélicos estão entre os mais fortes apoiadores de Bolsonaro.