Troca de saberes: a experiência do intercâmbio científico

Um balanço sobre experiências de intercâmbios científicos no âmbito do Programa Biota. O Boletim Biota Highlights conversou com quatro pesquisadores do Programa que realizaram parte de sua pesquisa no exterior.

São incontáveis os benefícios de intercâmbios científicos. De uma longa lista podemos mencionar: construir uma rede de trabalho internacional, conhecer outras culturas científicas, ter contato com outras linhas de pesquisa, instituições e pesquisadores, expandir o diálogo científico e ampliar a audiência global dos resultados alcançados. Estas experiências muitas vezes criam elos profissionais e pessoais que, no futuro, culminam em profícuas cooperações científicas. Quando este intercâmbio ocorre especificamente em outro país adiciona-se a experiência de vivenciar a cultura local e comunicar-se em outra língua, enfim, sentir-se estrangeiro.

A Fapesp, e por extensão o Programa Biota, vem incentivando cada vez mais o intercâmbio no exterior para seus bolsistas e pesquisadores como forma de promover a internacionalização da ciência paulista.

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Ilustração cedida por George Campos ((https://www.georgecampos.me/portfolio)

Especificamente sobre o Programa Biota, desde sua criação 17 bolsistas fizeram sua pesquisa ou parte dela no exterior. Destas 17 bolsas de estágio de pesquisa no exterior (BEPE), 70% foram implantadas nos últimos 3 anos.

Muitos dos bolsistas do Programa que vão para o exterior foram motivados a complementar suas pesquisas e ampliar suas linhas de estudo. “Meu propósito foi usar o vasto conhecimento dos pesquisadores na coleta, processamento e análise de organismos meiofaunais, em especial anelídeos, para usar técnicas de microscopias eletrônicas de varreduara e confocais laser, e de modelagem computacional 3D”, afirma Maikon Di Domenico, pós-doutorando na área de filogenia de anelídeos do Instituto de Biologia da Unicamp, que está desenvolvendo seu estágio de 9 meses na Universidade de Copenhagen (Dinamarca). Seu estágio conta com visitas ao Smithsonian Institute (Washington DC) para conferir material tipo, e coletas na Groenlândia (Estação Ártica em Qeqertarsuaq, Disko Island), Suécia (Kristineberg) e Itália (Golfo de Nápoles). Já George Mendes Taliaferro Mattox, na época pós-doutorando em filogenia de peixes do Instituto de Biociências da USP/SP e atualmente professor da UFSCarSorocaba,  buscou incorporar uma nova linha de pesquisa, a biologia do desenvolvimento, aos estudos mais tradicionais em sistemática de peixes. Para isso, o estágio foi feito em duas etapas: na primeira passou 5 meses no Natural History Museum (Reino Unido) com recursos da sua reserva técnica da bolsa de pós-doutorado, complementado com recursos próprios e, posteriormente, retornou por mais três meses com uma bolsa de estágio de pesquisa no exterior.

Para a realização de um estágio no exterior, um ingrediente importante é o contato inicial com o pesquisador anfitrião. Email, cursos, congressos, as formas de se criar um vínculo inicial, depende muito da pró-atividade do bolsista. Fabio Pinheiro, visando estudar a estrutura genética de populações de Epidendrum secundum (Orchidaceae) por meio de marcadores genéticos nucleares, escreveu diretamente para o pesquisador italiano Salvatore Cozzolino, da Universita Degli Studi Di Napoli Federico II (Itália), em 2006, propondo um estágio de um ano durante o doutorado. Essa experiência frutificou e desde então a cooperação tem se fortalecido, possibilitando, por exemplo, o desenvolvimento de um estágio curto de pesquisa na universidade italiana. Já Mattox, conheceu o Dr. Britz por meio de uma disciplina de doutorado. Recentemente Maria Fernanda Calió, pós-doutoranda do Instituto de Biociências da USP/SP retornou da University of Gothenburg (Suécia) onde foi estudar a biogeografia e diversificação de Anemopaegma (Bignoniaceae). Calió, conheceu o Prof. Alexandre Antonelli em 2005, durante um congresso internacional de Botânica pois ambos estávamos estudando famílias de plantas filogeneticamente relacionadas. Depois, se reencontraram em eventos científicos da área e Antonelli a convidou para realizar parte de sua pesquisa em seu laboratório.

A diversidade de alunos de diferentes partes do mundo é um elemento que favorece o entrosamento pelo ponto de vista de Mattox “Fui prontamente acolhido pelos pesquisadores mais próximos bem como por seus alunos de pós-graduação. O povo britânico é bastante cordial e não foi difícil me entrosar com a rotina local. Além disso, o NHM é um dos principais museus de história natural do mundo reunindo pesquisadores e alunos de várias partes do planeta”. Já Pinheiro destacou o profissionalismo com que os programas de intercâmbio são tratados na universidade napolitana “desde o primeiro dia de trabalho eu já possuía um espaço reservado para trabalhar, acesso a internet e as chaves que davam acesso aos laboratórios”. Já Calió aponta eventos internos como facilitadores de entrosamento no laboratório de universidade sueca “nas duas primeiras semanas do estágio participamos de um Workshop sobre diferentes métodos de análise de dados, organizado pelo pesquisador anfitrião e pelo seu departamento”.

A gestão do tempo é provavelmente um dos elementos que deve ser planejado com cuidado por aqueles que pretendem se aventurar a realizar parte das suas pesquisas no exterior, para que este valioso recurso (tempo) não falte, nem sobre. “As dificuldades foram aquelas já esperadas antes do início do estágio, ou seja, relacionadas ao aprendizado de uma série de novas metodologias de análise em apenas três meses”, afirma Calió. “Havia sim um grande volume de trabalho a ser feito, como estava mesmo previsto nos projetos e pouco tempo relativamente para executá-los. Assim, a rotina de trabalho foi bastante intensa, mas certamente os frutos compensam”, completa Mattox. Já Pinheiro se surpreendeu com a velocidade de obtenção de resultados no exterior “Os pesquisadores que desejarem viver esta experiência podem levar planos adicionais de pesquisa para complementar o projeto original, no caso do plano descrito na proposta inicial ser cumprido antes do prazo. Assim o investimento da viagem é aproveitado ao máximo”.

Por fim, se você está pensando em desenvolver parte da sua linha de pesquisa no exterior, não pense demais! Como finaliza Domenico “busquem centros de pesquisas que sejam excelência na sua área e venham com a mente e o coração abertos para aprender novas técnicas, aumentar seu grupo de trabalho, contextualizar suas perguntas de pesquisa com a atualidade e aprender novas culturas. A convivência de laboratório e as tarefas comuns do dia-a-dia em outros países, especialmente nos países escandinavos onde morei por mais tempo, trazem lições interessantes desde conceitos comportamentais na ciência como, eficiência, contexto, competição, ética e respeito, a até outros mais lúdicos como, culinária, artes e história”.

Por Paula Drummond de Castro