Inovação e troca com comunidades

Projeto inova também na busca de parcerias

Falar de inovação, especialmente na associação com a bioprospecção de moléculas químicas, nos leva a pensar em parcerias das universidades com empresas ou no desenvolvimento de medicamentos. Os estudos coordenados por Pio Colepicolo (IQ/USP) seguem esses caminhos mas abrem espaço para outros parceiros: as comunidades de pescadores e de produtores de camarões.

Alga (Gracilaria domingensis) cultivada com camarão
Alga (Gracilaria domingensis) cultivada com camarão (imagem de Eliane Soriano)

No projeto “Estudos de bioprospecção de macroalgas marinhas, uso da biomassa algal como fonte de novos fármacos e bioativos economicamente viáveis e sua aplicação na remediação de áreas impactadas” as algas da região entremarés são o foco. Essas algas vivem sob estresse ambiental forte, já que ficam expostas as condições atmosféricas durante as marés baixas, e isso faz com que sejam capazes de sintetizar diferentes compostos químicos para protegê-las. São organismos que possuem compostos químicos únicos, com moléculas inéditas e pouco estudadas. Cada espécie de alga tem uma bateria de compostos diferentes, que podem ser utilizados nas mais diferentes abordagens.

É neste ponto que entram dois aspectos da pesquisa: o estudo da biodiversidade dessas algas e os estudos de bioprospecção.

Um grupo de pesquisadores vai a campo e coleta novos espécimes para identificar. Outro grupo, no laboratório, faz a caracterização das moléculas químicas e mede atividades biológicas distintas como para atividades antioxidantes, antiinflamatórias, bactericida, antifúngica, anticâncer e para algumas doenças negligenciadas, como a leshimaniose.

Depois da identificação de alguma atividade de interesse, as moléculas são estudadas e podem seguir dois caminhos. Um caminho é a molécula servir como modelo de síntese. Entretanto, algumas delas são bastante difíceis de se sintetizar e são economicamente mais viáveis se extraídas das algas. E é aqui que entra o terceiro aspecto deste projeto, a parceria entre pesquisadores e comunidades de pescadores e produtores de camarões.

São exatamente as algas que possuem moléculas de interesse comercial e difícil síntese que são indicadas para o cultivo com os colaboradores como a Associação de Cultivadores de Algas de Rio do Fogo (Rio Grande do Norte) e de produtores de camarão da região e isso tem diversos reflexos diretos: o aumento de renda das populações litorâneas, a diminuição da pressão sobre os estoques naturais de algas e a qualidade da água onde as algas são cultivadas.

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Preparação das estruturas para cultivo de algas pela AMAR (imagem de Eliane Soriano)

São exatamente as algas que possuem moléculas de interesse comercial e difícil síntese que são indicadas para o cultivo com os colaboradores como a Associação de Cultivadores de Algas de Rio do Fogo (Rio Grande do Norte) e de produtores de camarão da região e isso tem diversos reflexos diretos: o aumento de renda das populações costeiras, a diminuição da pressão sobre os estoques naturais de algas e a qualidade da água onde as algas são cultivadas. Os estudos realizados em laboratório possibilitam a seleção de espécies de algas que apresentam alto potencial biotecnológico e que são mais adequadas para os cultivos no mar ou nos viveiros de camarão. Estas técnicas possibilitam a produção de novas linhagens com características de interesse biotecnológico, em especial na síntese de compostos farmacológicos e industriais ou de interesse para o cultivo no mar (resistência a doenças e herbivoria). Além disso, esses estudos fornecem importantes informações sobre as espécies que possuem alto valor agregado e que apresentam moléculas de difícil sintetização.

Estudos realizados pela professora Eliane Marinho Soriano, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte tem demonstrado a viabilidade do cultivo de algas para a região Nordeste. Na praia de Rio do Fogo o cultivo de algas é feito por cerca de 10 mulheres que tradicionalmente coletavam algas marinhas para comercialização. Hoje elas se organizam por meio da AMAR (Associação das Maricultoras de Rio do Fogo) e contam com o apoio da prefeitura com a cessão de um terreno para secagem das algas e um prédio para abrigar a sede provisória, onde são guardados equipamentos. “No litoral do Rio Grande do Norte, a colheita das algas marinhas tradicionalmente era realizada de forma extrativista pelas comunidades litorâneas (espécies dos gêneros Gracilaria e Hypnea) e tem, ao longo dos anos, desempenhado um importante papel na economia dessas populações como complemento de renda”, destaca Eliane Soriano, “a economia dessa região ainda apresenta um forte vínculo com as atividades de pesca, as quais, de forma geral, se apresentam com baixo padrão tecnológico e alto impacto ambiental, caracterizado principalmente pelo extrativismo fora dos padrões de capacidade de suporte. O cultivo de algas contribui para a diminuição da pressão sobre os estoques naturais” que ocorreriam com a colheita extrativista.

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Cultivo integrado de algas e camarões (imagem de Eliane Soriano)

No caso dos cultivos de algas integrados com camarão marinho o reflexo diz respeito à melhoria da qualidade da água que, depois usada, é devolvida ao meio ambiente. Nas fazendas os camarões são alimentados com rações com um alto um nível de proteínas. Há, portanto, uma entrada muito grande de nitrogênio e fósforo nos viveiros de cultivo. “Essa água que é sobra do cultivo de camarão é geralmente descartada no ambiente causando distúrbios no ecossistema aquático” salienta Pio Colepicolo. A conversão dos nutrientes residuais em biomassa de algas e recursos bioquímicos passíveis de comercialização aumenta a renda do produtor de camarão e gera benefícios que podem compensar os custos de produção já que, dependendo da espécie de alga, ela pode apresentar uma ampla aplicação industrial (como, por exemplo, em fármacos, cosméticos, fertilizantes ou rações). Por outro lado, camarões e algas tem coletas simultâneas, garantindo que o processo seja mais simples.

A pesquisadora Eliana Soriano destaca essa importância do uso de macroalgas nativas como biofiltros para a sustentabilidade da aquicultura: “do ponto de vista do menor impacto ambiental, a reciclagem dos rejeitos no próprio sistema (nas fazendas de camarão), é a proposta mais adequada para a sustentabilidade da aquicultura. Nesse sentido, o cultivo de organismos de diferentes níveis tróficos (como o camarão, peixes, ostras, algas etc) tem sido apontado não só como uma tecnologia que permite a melhoria da qualidade da água (pela retirada de nutrientes) mas também como promotora de benefícios econômicos, através da diversificação dos organismos cultivados”.

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Campos de cultivo de camarões (imagem de Eliane Soriano)

Alguns desafios ainda perduram, especialmente no que diz respeito à comercialização das algas cultivadas. “Para efetivar o cultivo comercial de algas é necessário a implementação de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento dessa atividade”, resume Eliane Soriano.

(por Érica Speglich)