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Água-viva exótica invade rios e lagos do Brasil

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Quando pensamos em águas-vivas, geralmente a imagem que nos vem à cabeça é de praia e mar. Mas algumas poucas espécies vivem em água doce, é o caso da Craspedacusta sowerbii, uma pequena medusa de cerca de 2 centímetros proveniente da Ásia, cuja invasão em território brasileiro tem causado problemas em rios e lagos. Cientistas do Programa Biota/Fapesp fizeram análises morfológicas e moleculares da espécie e identificaram que ela foi introduzida no país pelo menos em dois momentos e por dois caminhos diferentes, além de destacar a necessidade de monitoramento adicional para compreensão dos impactos ecológicos dessa invasão.

“A teoria mais aceita atualmente é que essa espécie tenha sido disseminada pelo mundo por meio de plantas aquáticas como o aguapé e acabaram se instalando em todo o mundo e também aqui no Brasil”, pontua Sérgio Stampar (UNESP de Bauru), coordenador do estudo. A pesquisa, publicada no periódico Austral Ecology em fevereiro deste ano, analisou registros históricos de ocorrência da espécie na América do Sul e de espécimes coletados em um lago no estado do Paraná, após uma mortalidade em massa de tilápias.

Craspedacusta sowerbii . Foto: Sérgio Stampar.

A Craspedacusta sowerbii possui um ciclo de vida comum à maioria dos cnidários da mesma classe (Hydrozoa), que alterna entre uma fase de pólipo imóvel e fixo a um substrato e uma fase de medusa, que nada livremente pelas águas. “Essa espécie tem um modo reprodutivo explosivo, então quando ela está no momento do seu ciclo de vida de medusa, ocorre em grandes quantidades, por três ou quatro dias apenas. E isso pode causar problemas para humanos, mas principalmente para os peixes, que foi o que ocorreu no local que estudamos”, explica o pesquisador.

Outra característica curiosa é o fato de que a pesquisa encontrou apenas fêmeas no lago estudado no Paraná. “Aqui no Brasil essa espécie está fora do seu habitat natural, então seus ciclos de vida podem ficar muito diferentes. Pode também ter algo no ambiente que faz com que só as fêmeas se desenvolvam; isso é algo que ainda precisaremos investigar. No caso da população estudada, o que acreditamos é que tenha vindo para a região apenas um pólipo de origem, o que reforça a conclusão de que se trata de um grupo invasor”.

A análise molecular foi realizada com 2 populações distintas, uma do Paraná e uma de Santa Catarina e mostraram que elas não compartilham a mesma origem. “Verificamos que a população do Paraná tem proximidade molecular com as encontradas no Chile, enquanto que a encontrada em Santa Catarina é fortemente ligada às águas-vivas do sul da Ásia, principalmente de Cingapura e da China”, detalha Stampar, “isso sugere fortemente que essas populações foram introduzidas de forma separada”.

A pesquisa continua; agora a equipe começa a mapear a presença dessas águas-vivas em ambientes de água doce por meio da técnica de DNA ambiental, em especial no Centro-Oeste e Norte do Brasil e em cavernas. A meta é identificar se há linhagens ancestrais desses organismos no Brasil. “A identificação por observação, especialmente na fase de pólipo, é praticamente impossível. Então estamos usando essa técnica para verificar por onde esses animais já se espalharam e, se já estiverem nesses ambientes, a qual linhagem pertencem. Esses dados podem ajudar a medir a extensão da dispersão dessa espécie no país e servirão de base para compreender a distribuição e a dinâmica populacional das águas-vivas de água doce e as possibilidades de manejo de populações exóticas com potencial invasor”, conclui o pesquisador.

Acesse o artigo completo em:

daSilva, L. M. D., M. I.Deserti, M. N.Pereira, et al. 2026. “Brazil’s invisible invaders: Are Craspedacusta jellyfish a ticking ecological bomb?.” Austral Ecology 51, no. 3: e70201. https://doi.org/10.1111/aec.70201.

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