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Mata de Santa Genebra abriga 181 espécies de aves e revela impactos da fragmentação urbana

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Artigo lista as espécies encontradas com fotos, que podem ajudar interessados na observação de aves da região

Em meio à crescente expansão urbana e ao desmatamento, um remanescente de Mata Atlântica de 251 hectares na região de Campinas continua a funcionar como um refúgio para a diversidade de aves. A Mata de Santa Genebra, localizada no distrito de Barão Geraldo, foi objeto de um levantamento que identificou 181 espécies de aves, um número que representa 20,97% de todas as espécies registradas no estado de São Paulo e 47,75% das encontradas no município. O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas e publicado na revista Biota Neotropica, oferece um retrato da avifauna local e evidencia os efeitos da pressão antrópica sobre a Mata e suas aves.

Durante um ano, os pesquisadores percorreram semanalmente um caminho que contorna a Mata, registrando as aves com binóculos, gravadores de áudio e câmeras fotográficas. O método de observação direta, com caminhadas nos períodos da manhã e da tarde, permitiu documentar não apenas a presença das espécies, mas também comportamentos variados, desde alimentação e higiene até vocalizações e interações sociais.

Algumas das espécies encontradas no estudo: Dendrocygna autumnalis (a), Penelope obscura (b), Patagioenas picazuro (c), Guira guira (d), Nyctidromus albicollis (e), Chlorostilbon lucidus (f), Thalurania glaucopis (g), Aramides cajaneus (h), Himantopus melanurus (i), Jacana jacana (j), Syrigma sibilatrix (k) e Tigrisoma lineatum (l). Fotos: Carlos Henrique L. Nunes-de-Almeida.

Os cientistas verificaram uma dominância de aves típicas de áreas abertas e bordas de floresta, como a rolinha-roxa (Columbina talpacoti), a coruja-buraqueira (Athene cunicularia) e o tico-tico (Zonotrichia capensis), avistadas em quase todas as saídas de campo. Segundo os autores, a configuração alongada do fragmento intensifica o efeito de borda, criando uma maior proporção de vegetação secundária, que favorece espécies adaptadas a essas condições em detrimento de espécies típicas do interior da floresta. Ainda assim, os autores destacam que “as áreas de borda, especialmente as zonas úmidas da Mata, fornecem recursos críticos para várias espécies de aves”, reforçando a necessidade de conservar essas áreas e o entorno da Mata para manter a biodiversidade local e os serviços ecossistêmicos.

Além de registrar as espécies, os autores também compararam seus avistamentos com com levantamentos anteriores realizados no local. Entre as diferenças está a ausência da jacupemba (Penelope superciliaris) na Mata, os pesquisadores atuais encontraram apenas o jacuaçu (Penelope obscura). “Uma explicação simples seria uma identificação equivocada de espécies anterior, o que parece improvável devido à experiência de campo dos autores citados. A outra possibilidade, mais plausível, é a extinção local de Penelope superciliaris e sua substituição por P. obscura devido a pressões antrópicas”, interpretam os autores.

Outra diferença foi o registro de um tangará híbrido, resultado do cruzamento entre o tangará-dançador (Chiroxiphia caudata) e o tangará-de-garganta-preta (Antilophia galeata). Este último não havia sido registrado no estudo de 1995, indicando uma possível chegada recente associada à degradação da floresta. “A presença de A. galeata em áreas úmidas sugere mudanças na distribuição desta espécie devido à degradação florestal”, afirmam os pesquisadores, acrescentando que a hibridização “pode ser uma resposta a condições de habitat alteradas e tem implicações importantes para a dinâmica ecológica local e para a integridade das comunidades biológicas”.

Algumas das espécies encontradas no estudo: Lepidocolaptes angustirostris (a), Chiroxiphia caudata (b), Antilophia galeata (c), Chiroxiphia caudata x Antilophia galeata hybrid (d), Todirostrum poliocephalum (e), Pitangus sulphuratus (f), Pyrocephalus rubinus (g), Gubernetes yetapa (h), Vireo chivi (i), Cyanocorax cristatellus (j), Progne tapera (k), and Donacobius atricapilla (l). Fotos: Carlos Henrique L. Nunes-de-Almeida.

A diversidade de hábitos entre as 181 espécies observadas é ampla, incluindo desde herbívoros, como a pombão-de-bando (Patagioenas picazuro) e a jacutinga-do-sudeste (Penelope obscura), até espécies onívoras e insetívoras que dominam as áreas de cultivo e borda. Os pesquisadores documentaram aves exercendo funções ecológicas essenciais, como o urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus) na remoção de carcaças, os beija-flores (Chlorostilbon lucidus e Thalurania glaucopis) na polinização e o sabiá-poca (Turdus amaurochalinus) e o saltador-fuliginoso (Saltator fuliginosus) na dispersão de sementes.

Diante do cenário de isolamento e pressão urbana, os autores enfatizam a necessidade de ações de manejo que considerem a realidade do fragmento. “A gestão da biodiversidade na Mata de Santa Genebra deve considerar estas condições específicas e adaptar as estratégias de conservação para enfrentar os desafios únicos apresentados”, defendem. O estudo aponta que medidas como a restauração de habitats, a criação de corredores ecológicos e a vigilância contra atividades ilícitas, como caça e incêndios, são essenciais para preservar a diversidade de aves em áreas altamente fragmentadas. Além disso, reforçam a necessidade de mais pesquisas sobre as relações entre as aves e a vegetação local e a continuidade do monitoramento do fragmento.


Acesse o texto completo com a lista de espécies e fotografias (em inglês): HIPOLITO, J.V., D’ANGELO, G.B., SAZIMA, I., NUNES-DE-ALMEIDA, C.H.L. What birds are found at the edge of a suburban forest? A case study around the Mata de Santa Genebra, Campinas, São Paulo state, Southeastern Brazil. Biota Neotropica 26(1): e20251841. https://doi.org/10.1590/1676-0611-BN-2025-1841.

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