Autores: Franciane Cedrola, Marcus Vinicius Xavier Senra, Millke Jasmine Arminini Morales, Priscila Fregulia, Lucas Canesin, Roberto Júnio Pedroso Dias, Vera Nisaka Solferini
Jovem revisor: Vedant
Resumo
A capivara, o maior roedor do mundo, pesa até 90 kg e mede mais de um metro de comprimento. As capivaras se alimentam de gramíneas, frutas e cascas de árvores. No entanto, essas plantas são revestidas por um celulose, que é difícil de digerir. Para superar isso, a capivara conta com microorganismos em seu intestino que ajudam a quebrar a celulose e liberar nutrientes. Um microorganismo chave é Muni, um protozoário gigante que pode alcançar até 3 mm de comprimento, visível a olho nu. Cientistas descobriram que Muni possui genes que produzem enzimas poderosas essenciais para a digestão da celulose. Essa aliança notável entre a capivara e seus aliados microbianos destaca como a cooperação pode ajudar a superar os desafios mais difíceis da vida.
O desafio digestório da capivara
Neste artigo, contaremos uma história sobre a capivara. A capivara é o maior roedor do mundo. Ela vive apenas na América do Sul, pesa até 90 kg, mede mais de 1 metro de comprimento e sobrevive com uma dieta composta exclusivamente por material vegetal, como gramíneas, frutas e cascas de árvores (Figura 1) [1]. Mas a capivara enfrenta um grande desafio em sua vida: os materiais vegetais que consome são difíceis de digerir pois possuem uma forte camada de proteção feita de celulose, um carboidrato complexo que forma as paredes das células vegetais [2]. Mas a capivara não se preocupa com isso, porque ela tem uma solução incrível — ela se une a alguns “amigos” muito pequenos que vivem em seu intestino [3, 4]. Quem são esses amigos?

Os pequenos amigos da capivara
Os pequenos amigos que vivem no intestino da capivara são chamados de microorganismos e eles são bons para ajudar a capivara a quebrar essa forte barreira dos vegetais. Imagine-os como pequenos ajudantes com ferramentas que podem picar a celulose e liberar toda a energia das plantas [3, 4]. Quando a capivara come grama, frutas ou cascas de árvores, a comida desce para o seu intestino, onde os microorganismos entram em ação. Eles usam suas ferramentas, chamadas enzimas, para transformar a comida de difícil digestão em algo que a capivara pode usar como energia. Os produtos resultantes, que podem incluir açúcares, proteínas, gorduras ou vitaminas, garantem que a capivara fique satisfeita, fornecendo a energia necessária para suas atividades. Mas como isso acontece?
O ceco: a oficina dos microorganismos
O segredo está em uma parte especial do sistema digestório da capivara, chamada ceco (Figura 1) [1, 3, 4]. O ceco é uma parte grande do intestino com um formato de bolsa onde os microorganismos — os pequenos amigos da capivara — realizam seu importante trabalho. Dentro dessa bolsa, esses microorganismos decompõem os materiais vegetais e os transformam em peças simples e fáceis de digerir. É assim que a capivara obtém o máximo proveito de seu alimento [3, 4].
Uma equipe diversa de microorganismos
Dentro do intestino da capivara, há uma comunidade diversa de microorganismos [3–5], cada um desempenhando um papel específico. Alguns deles são bactérias, que são boas em quebrar as partes resistentes das plantas. Há também os fungos, que ajudam produzindo nutrientes importantes. Mas alguns dos membros mais importantes dessa equipe microbiana são os protozoários [4, 5]! Os protozoários são organismos unicelulares, o que significa que são formados por apenas uma minúscula célula — mas eles executam um grande trabalho [4, 5]. Há aproximadamente 1.000.000 de células de protozoários por mililitro de conteúdo do ceco [5]. Considerando que o volume total do ceco é de aproximadamente 2 L, ou 2.000 ml, existem bilhões desses microorganismos no sistema digestório da capivara. Eles ajudam a decompor ainda mais os vegetais e garantem que a capivara obtenha todos os nutrientes de que precisa [4].
Muni, o protozoário gigante
Um dos protozoários mais importantes no intestino da capivara é um gigante entre os microorganismos, chamado Muni (Figura 2) [4, 5]. Em vez de medir cerca de 0,3 mm, como muitos outros protozoários, ele pode medir até 3 mm [5]! Ele é tão grande que pode ser visto a olho nu. Este protozoário consegue decompor material vegetal resistente e, portanto, é indispensável para a capivara [4].

Figura 2 – Os protozoários são o grupo microbiano mais abundante no intestino da capivara. Entre eles, o Muni é um protozoário gigante. Ele desempenha um papel importante na digestão da capivara.
Cecotrofos: lanches supernutritivos
Aqui está a parte mais interessante de todas: a alimentação da capivara não termina depois que os microorganismos fazem o seu trabalho. Na verdade, há um problema: quando os microorganismos decompõem o material vegetal no intestino grosso, o alimento já passou pela região principal onde são absorvidos — o intestino delgado. Isso significa que a maioria dos nutrientes liberados pelos microorganismos normalmente já estaria perdida. Para superar isso, os microorganismos ajudam a capivara a produzir um tipo especial de fezes chamado cecotrofos [1]. Os cecotrofos são como lanches supernutritivos que a capivara come imediatamente após serem excretados [1]. Embora isso possa parecer pouco apetitoso, é uma estratégia brilhante! Ao consumir cecotrofos, a capivara garante que absorve cada parte nutritiva de seu alimento [1, 3, 4]. Sem comer cecotrofos, mesmo com a ajuda dos microorganismos, a capivara não seria capaz de se beneficiar totalmente dos nutrientes em sua dieta (Figura 3).

Uma colaboração gigante pela sobrevivência
Curiosamente, a relação entre a capivara e o Muni é uma cooperação entre gigantes! A capivara é o maior roedor, e o Muni é um gigante entre os protozoários. Juntos, eles formam uma equipe extraordinária que garante que a capivara se desenvolva com sua dieta rigorosa à base de plantas. Essa colaboração de gigantes é um exemplo notável de como diferentes organismos podem trabalhar juntos para superar desafios e sobreviver em seus ambientes.
Glossário
Celulose: Um carboidrato complexo que forma as paredes das células vegetais. Proporciona rigidez, resistência e é o composto orgânico mais abundante na Terra.
Enzimas: Proteínas que aceleram reações químicas em organismos vivos sem serem consumidas. As enzimas desempenham um papel fundamental em muitos processos do corpo.
Sistema Digestório: Uma série de órgãos que decompõem os alimentos, absorvem nutrientes e os transformam em substâncias que o corpo usa para energia, crescimento e manutenção.
Ceco: Uma estrutura em forma de bolsa na junção do intestino delgado e grosso, onde ocorre a decomposição de carboidratos indigestos, como a celulose, especialmente em herbívoros.
Bactérias: Organismos unicelulares que não possuem um núcleo verdadeiro nem organelas ligadas à membrana.
Fungos: Organismos que obtêm nutrientes absorvendo-os do ambiente, geralmente através da decomposição de matéria orgânica. As células dos fungos têm núcleo, e eles incluem bolores, leveduras e cogumelos.
Protozoários: Um grupo diverso de microrganismos que não se encaixam nas categorias de plantas, animais ou fungos.
Cecotrofos: Fezes macias e cobertas por muco produzidas por alguns mamíferos, muitas vezes reingeridas para que o animal possa absorver mais nutrientes — ao contrário das fezes duras que contêm apenas resíduos.
Artigo de referência
Cedrola, F., Senra, M. V. X., Gürelli, G., Morales, M. J. A., Dias, R. J. P., Soares, W. V. B., et al. 2025. Functional genomics analyses of symbiotic ciliates of herbivorous mammals suggests microbial niche partitioning and more efficiency in rumen environment. Biol. J. Linn. Soc. 145:blaf063. doi: 10.1093/biolinnean/blaf063
Referências
[1] Moreira, J. R., Ferraz, K. A. P. M. B., Herrera, E. A., and Macdonald, D. W. (eds.). 2013. Capybara: Biology, Use and Conservation of an Exceptional Neotropical Species. New York, NY: Springer.
[2] Bhardwaj, N., Kumar, B., Agrawal, K., and Verma, P. 2021. Current perspective on production and applications of microbial cellulases: a review. Bioresour. Bioprocess. 8:95. doi: 10.1186/s40643-021-00447-6
[3] Cabral, L., Persinoti, G. F., Paixão, D. A. A., Martins, M. P., Morais, M. A. B., Chinaglia, M., et al. 2022. Gut microbiome of the largest living rodent harbors unprecedented enzymatic systems to degrade plant polysaccharides. Nat. Commun. 13:629. doi: 10.1038/s41467-022-28310-y
[4] Cedrola, F., Senra, M. V. X., Morales, M. J. A., Fregulia, P., Canesin, L., Dias, R. J. P., et al. 2024. Giants’ cooperation: a draft genome of the giant ciliate Muniziella cunhai suggests its ecological role in the capybara’s digestive metabolism. Microb. Genom. 10:001263. doi: 10.1099/mgen.0.001263
[5] Cedrola, F., Fregulia, P., D’Agosto, M., and Dias, R. J. P. 2018. Intestinal ciliates of Brazilian Capybara (Hydrochoerus hydrochaeris L.) Acta Protozool. 57:61–7. doi: 10.4467/16890027AP.18.006.8400
Originalmente publicado em inglês em: Cedrola F, Senra MVX, Morales MJA, Fregulia P, Canesin L, Dias RJP and Solferini VN (2026) The Big Team-Up: How a Giant Microbe Helps the Capybara’s Digestion. Front. Young Minds. 14:1483371. doi: 10.3389/frym.2026.1483371
Tradução: Texto traduzido com o auxílio das ferramentas de IA DeepSeek e Deep, revisado e adaptado por Érica Speglich.














