Startups e deeptechs utilizam microrganismos e nanopartículas para produzir insumos biodegradáveis e menos danosos ao meio ambiente
A transferência de tecnologia entre a pesquisa sobre biodiversidade e produtos inovadores é comum nas Universidades, mas ainda pouco conhecida pela sociedade. O painel de discussões sobre Inovação em Biodiversidade , realizado durante o XI Simpósio de Integração e Reunião de Avaliação do Programa Biota/Fapesp, teve, justamente, o objetivo de apresentar empresas com iniciativas de inovação que surgiram a partir de estudos da diversidade biológica.
Diante dos diversos e conhecidos problemas ambientais e de saúde causados pelo uso de insumos agrícolas sintéticos, os pesquisadores Manuella Ribeiro da Esalq/USP, Leonardo Fraceto da UNESP e Renata de Lima da Universidade de Sorocaba (UNISO), mostraram como suas pesquisas se tornaram empresas que hoje desenvolvem bioinsumos eficazes e sustentáveis.
Da USP de Piracicaba, nasceu a Microgene, empressa coordenada por Manuella Ribeiro, que desenvolve bioinsumo a partir de um banco de microrganismos endofíticos isolados de folhas e raízes de diferentes espécies de plantas da biodiversidade brasileira. Os produtos tem o objetivo de promover crescimento e produtividade das plantas, controlar pragas e aumentar a resistência ao estresse abiótico, como a seca, por exemplo. As etapas incluem a seleção de microrganismos ativos para a função desejada, a fermentação para crescimento e obtenção de maior quantidade, o desenvolvimento de uma formulação que mantenha os microrganismos viáveis quando aplicados no campo, o licenciamento do produto final e sua comercialização.
De acordo com Ribeiro, 90% dos fertilizantes utilizados no país são importados e situações como guerras podem encarecer ou até inviabilizar sua compra. Além disso, esse produtos geralmente são tóxicos e, devido ao uso repetido, as lavouras desenvolvem resistência, fazendo com que a quantidade utilizada seja cada vez maior, o que gera ainda mais danos ambientais. O desenvolvimento e produção de insumos menos tóxicos, biodegradáveis e economicamente viáveis torna-se, portanto, essencial.
O INCT Nano Agro – Nanotecnologia para Agricultura Sustentável, coordenado por Leonardo Fraceto, é uma rede de pesquisadores atualmente composta por instituições da região centro-sul do país, que desenvolve formulações que também visam tornar a agricultura uma atividade menos danosa ao ambiente. Na mesma linha de Ribeiro, o pesquisador afirma que muitas das formulações utilizadas são desenvolvidas por empresas estrangeiras e, quando adaptadas para a agricultura brasileira, não têm uma boa adaptação e não performam bem.
Utilizando como exemplo o herbicida sintético Atrazina, amplamente conhecido e utilizado no Brasil, o coordenador do INCT Nano Agro apresentou uma formulação produzida com nanopartículas biodegradáveis feitas à base de proteína de milho e recheadas com o insumo comercial. O produto, licenciado pela startup B.nano que foi criada por ex-alunos do grupo de pesquisa de Fraceto, possibilitou que a quantidade de insumo utilizado no campo fosse reduzida em oitenta vezes, mantendo a mesma eficiência. “Isso significa que a Atrazina encapsulada tem uma capacidade ainda maior de ser absorvida pela planta daninha no início da germinação, o que impede seu desenvolvimento”, explica.

As nanopartículas também fazem parte dos produtos desenvolvidos pela equipe de Renata de Lima na Prïobio, deeptech criada pela pesquisadora na UNISO. A partir da bioprospecção, ou seja, da busca por metabólitos úteis produzidos por microrganismos, o grupo de pesquisa desenvolve insumos baseados em produtos naturais e nanopartículas. O foco aqui são microrganismos isolados a partir de colmeias de abelhas sem ferrão, já que as substâncias produzidas por eles têm menos potencial de causar danos aos insetos quando aplicadas no campo.
Lima conta que trabalha com duas plataformas: nanopartículas de sílica, substância que pode ser extraída da casca do arroz, e nanopartículas metálicas biogênicas, compostas por um núcleo de metal (prata, ferro, ouro ou titânio) ao redor do qual se organizam as moléculas biológicas ativas. Integrando os metabólitos secundários produzidos pelos microrganismos a essas plataformas, a deeptech produz bioestimulantes, herbicidas e praguicidas que podem ser uados na lavoura sem o ônus da toxicidade ambiental.
A partir destas experiências, destaca-se a importância da aproximação entre a Universidade, empresas e o setor da agricultura, que devem pensar juntos em alternativas economicamente viáveis e ambientalmente sustentáveis para o futuro da produção agrícola brasileira.













