Pesquisadores do Programa Biota/Fapesp apresentaram experiências e desafios nas relações entre a ciência, políticas públicas e ações territoriais
As pesquisas baseadas em ciência de síntese e aquelas voltadas à transformação de territórios também tiveram espaço no XI Simpósio do Programa Biota/Fapesp. Pesquisadores que tiveram seus projetos aprovados nas Chamadas Biota de Síntese ou de Transformação apresentaram o que vêm desenvolvendo desde então, além dos convidados Marisa Mamede, do Centro de Síntese em Biodiversidade do CNPq (SinBiose) e Marten Winter, do Centro Alemão de Pesquisa Integrada em Biodiversidade (iDiv). As discussões giraram em torno de como os diferentes grupos e centros de pesquisa têm trabalhado para coproduzir conhecimentos, construir relações com tomadores de decisão e avaliar o impacto das pesquisas e ações realizadas.
Com base em 14 anos liderando um centro de síntese, Marten Winter, do iDiv, defendeu que projetos bem-sucedidos dependem menos de métodos sofisticados e mais da construção de colaborações. Para ele, unir diferentes visões, teorias e dados exige uma atmosfera de confiança e camaradagem, na qual ideias ainda em elaboração possam ser compartilhadas e criticadas com liberdade. A construção de grupos com diversidade de gênero, de estágio de carreira e de habilidades também foi um fator decisivo apontado pelo pesquisador. “O sucesso”, resumiu Marten Winter, “vem de equipes que funcionam como mais que a soma das partes, e que também sabem se divertir juntas”.
Já Marisa Mamede, do SinBiose, trouxe a centralidade da comunicação para a construção de relações com tomadores de decisão. Segundo ela, a comunicação não é um acessório, mas parte da estratégia de impacto de projetos que tenham como foco a relação com políticas públicas. Outro ponto destacado por ela como essencial foi a necessidade de construção de indicadores de avaliação das pesquisas que levem em conta não apenas a produção acadêmica, mas também o impacto no mundo e nas políticas.
A mesa-redonda contou também com a apresentação de quatro projetos vinculados ao Programa Biota. O projeto “CoDesign para Biodiversidade”, coordenado pela pesquisadora Denise Dantas (FAU/USP), usa o design como ferramenta participativa para consolidar sistemas agroflorestais no estado de São Paulo. “Os benefícios socioambientais desses sistemas ainda são pouco reconhecidos pelos consumidores, e os agricultores enfrentam barreiras para comunicar e valorizar seus produtos”, explica a pesquisadora. Com 28 agricultores em três territórios, o projeto desenvolveu oficinas, matrizes de certezas, suposições e dúvidas, priorização e um protocolo autoaplicável. Entre os resultados estão o selo “Aqui tem agrofloresta” e um sistema de ícones que traduz benefícios em linguagem visual, lançados durante o evento.
O projeto “Soluções baseadas na natureza para a gestão de paisagens multifuncionais”, coordenado por Débora Rother (UFSCar), trabalha em três frentes: o levantamento de problemas em municípios da Mata Atlântica e do Cerrado, a identificação de perdas de serviços ecossistêmicos, sobretudo o controle biológico de pragas, e o desenho de soluções com os agricultores. Entre os resultados, a pesquisadora destacou a identificação das redes de interação ave-planta, das redes tróficas de anuros e a amostragem de artrópodes predadores, informações essenciais para a identificação dos serviços ecossistêmicos dessas paisagens. A pesquisa também mostrou a importância, nas paisagens multifuncionais, de se buscar estratégias de coprodução com o setor produtivo, dado o poder de influência das empresas do setor agrícola na governança ambiental.
Já o pesquisador Pedro Torres (UNESP Litoral Paulista), do projeto ReCiDATA, busca avaliar as lacunas de implementação de políticas e instrumentos de adaptação às mudanças climáticas. “É preciso agir com protocolos, alertas e ações pontuais enquanto os planos de longo prazo são preparados”, reforça o pesquisador, “sem abandonar a adaptação estrutural e transformadora”. O pesquisador apresentou, ainda, a experiência do Programa de Redução e Adaptação ao Risco Climático Comunitário e a implementação de um corredor verde em uma comunidade, ambos em Santos, reforçando a importância da coprodução de conhecimentos e de soluções.
O projeto Biota Síntese foi representado por Rafael Chaves (SEMIL-SP), que trouxe o olhar do gestor público para a discussão, reforçando, mais uma vez, a importância do trabalho conjunto entre pesquisadores e gestores públicos. O projeto Biota Síntese produziu notas técnicas que contribuem para o Plano de Ação Climática, o financiamento da restauração, o pagamento por serviços ambientais, a polinização e o enfrentamento de ondas de calor. “Para mim, um indicador de sucesso de uma política baseada em evidências pode ser medido por algo simples e profundo: as pessoas dormindo tranquilas depois de sua implementação”, reflete Rafael Chaves.












