Tubarões e Raias: banco genético e conservação

Construção de banco genético internacional de elasmobrânquios auxilia na troca de informações, avaliação da estrutura de populações e definição de estratégias de conservação.

Trocar informações relevantes, bem fundamentadas e organizadas é o desafio praticamente todas as áreas de pesquisa atuais. O uso de banco de dados ou de amostras para favorecer essas trocas é um dos caminhos escolhidos pelos mais diferentes grupos e projetos de pesquisa, especialmente em conservação da biodiversidade e incluindo o Programa Biota e seu Sistema de Informações Ambientais. O objetivo do projeto “Biodiversidade molecular e conservação de tubarões: banco genético, estruturas populacionais e rede internacional de colaboração científica”, coordenado por Fernando Fernandes Mendonça (Instituto do Mar, Unifesp/Santos) é o de construir um banco genético internacional de tubarões e raias e fomentar, com isso, uma rede de cooperação e pesquisas.

<i>Arraia dasyatidae</i> - Banco de Imagens para uso didático do Governo do Estado do Paraná - https://www.ciencias.seed.pr.gov.br
Arraia dasyatidae – Banco de Imagens para uso didático do Governo do Estado do Paraná – https://www.ciencias.seed.pr.gov.br

“O banco foi concebido para abrigar amostras globais de elasmobrânquios, centralizando a gestão do material representativo da diversidade de espécies e populações de tubarões e raias ao redor do mundo e agregar pesquisadores capazes de identificar prioridades de estudos na área”, explica Mendonça. Uma das grandes vantagens desta centralização de informações, é, segundo Mendonça, a identificação de possibilidades de estudos, sobretudo a respeito de espécies exploradas, espécies raras e de difícil coleta.
A dificuldade da área de pesquisa é conhecida de longa data nas pesquisas em biodiversidade, como destaca Mendonça: “muitas vezes temos pesquisadores com um pequeno número de amostras de uma determinada espécie, impossibilitando um estudo populacional de um animal raro, por exemplo. Esta situação se repete em outros laboratórios que , por não estarem em contato com pesquisadores de outros centros, perdem a chance de compartilhar um trabalho científico”.
A proposta de criação deste banco genético começou em 2004 durante o trabalho de mestrado de Mendonça: “ tendo em vista o grande crescimento da exploração pesqueira mundial sobre esse grupo de animais procuramos, desde então, ferramentas genéticas para gerar informações relacionadas com a conservação dos tubarões e raias”. Parcerias internacionais alimentadas durante os anos de pós-graduação e pós-doutorado possibilitaram a Mendonça a coleta de amostras e o acesso a informações de um grande número de espécies costeiras e oceânicas. “Eu podia contar com a colaboração destes pesquisadores em estudos que iam além de nossa costa e com um número e diversidade de amostras que passaram a viabilizar diversos outros trabalhos que poderiam contribuir com informações para a gestão pesqueira e conservação”, explica Mendonça e, considerando a relevância destes estudos, ele e sua equipe passam a se dedicar à inclusão de novos colaboradores, novas espécies e regiões distintas.
A viabilidade da proposta de um banco internacional se dá exatamente por meio da contribuição e confluência de centenas de laboratórios e coleções menores ao redor do mundo e pelo compartilhamento das amostras do banco em trabalhos independentes. O banco procura armazenar a maior quantidade de informações possível sobre cada amostra, do essencial nome da espécie ao tamanho do indivíduo coletado e coordenadas geográficas do ponto de coleta. A diversidade de formas de obtenção das amostras e a grande variação dos dados agregados a cada uma delas são os grandes desafios na implementação do banco genético mas não os únicos, a adequação simultânea às legislações brasileiras e internacionais também se mostra como um grande desafio.
Neste momento, o grupo de pesquisas trabalha com a base de dados que deverá ser disponibilizada para o acesso público por meio da internet. “Acreditamos que quando tais informações se tornarem abertas à comunidade científica, teremos um fluxo de amostras aumentado – chegando por meio dos colaboradores, mas também teremos solicitações de envio para pesquisadores externos. Nesse momento teremos que estar completamente adequados às legislações vigentes no Brasil e exterior quanto às questões relacionadas ao patrimônio genético, utilização de amostras de espécies protegidas e convenções internacionais, tais como as CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção)”.
Os estudos desenvolvidos utilizando esse banco de amostras de tubarões e raias têm gerado importantes informações sobre o status populacional de espécies também de interesse da pesca, tais como a delimitação de estoques genéticos, estimativas de tamanho e expansões populacionais, variabilidade e fluxo gênico. “Estas informações são cruciais para o ordenamento pesqueiro, pois possibilitam identificar quais espécies e em que regiões a pesca pode ser mais ou menos favorável à sustentabilidade e quais estratégias devem ser adotadas para a recuperação de estoques já sobre explorados”, explica Mendonça, “também temos utilizado estas amostras para acessar características genéticas que diferenciam as espécies umas das outras. Com base nestas assinaturas genéticas estamos identificando subprodutos de tubarões e raias comercializados no Brasil e exterior sem o devido registro das espécies ou sem permissão legal por se tratarem de espécies ameaçadas”.
Todos estes dados já puderam ser utilizados na elaboração dos estudos sobre o status de conservação destes peixes na costa brasileira, base para as leis de conservação atuais, elaboradas pelo Ministério do Meio Ambiente e também têm sido discutidos nos fóruns internacionais para a administração das pescas tais como a ICCAT (Convenção Internacional para a Conservação do Atum e Afins do Atlântico), ao qual o Brasil é signatário e também na IOTC (Comissão do Atum do Oceano Índico).
Alcançando cerca de 10 mil amostras de tubarões e raias dos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico, hoje o projeto conta com colaboradores frequentes de instituições brasileiras tais como Universidade Estadual Paulista, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Universidade Federal do Pará, Instituto de Pesca de São Paulo, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis. No exterior a rede conta com pesquisadores da Venezuela, EUA, Portugal, Espanha, França, Senegal, Costa do Marfim, Japão e Austrália. As colaborações têm sido baseadas desde o recebimento de exemplares para a composição da coleção, compartilhamento de informações, trabalho conjunto em campo até o intercâmbio de pesquisadores e estudantes.

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