Conversa do Mês – Banco de Imagens Cifonauta (maio/2014)

Os entrevistados do mês são Alvaro E. Migotto (Centro de Biologia Marinha/USP) e Bruno C. Vellutini (Sars International Centre for Marine Molecular Biology/Noruega), criadores do Banco de Imagens Cifonauta (https://cifonauta.cebimar.usp.br/). O banco reúne fotos e vídeos resultantes de atividades científicas e de ensino em biologia marinha, organizados por classificação taxonômica, estágio de vida e geolocalização. A experiência de montagem e manutenção do banco Cifonauta, incluindo as discussões sobre como organizá-lo e as licenças de uso escolhidas, traz várias discussões relevantes para aqueles interessados na divulgação ampla de suas pesquisas.

1 – Como surgiu a ideia de montar o Banco de Imagens Cifonauta?

Physalia physalis
Alvaro E. Migotto. Caravela-portuguesa. Banco de imagens Cifonauta. Disponível em: https://cifonauta.cebimar.usp.br/photo/1325/ Acesso em: 2014-04-21.

Um dos trabalhos do biólogo marinho é documentar a fascinante diversidade de organismos, representada por formas, tamanhos e cores dos mais variados. O Centro de Biologia Marinha da USP (CEBIMar) localizado em São Sebastião (SP) é um laboratório costeiro com condições excelentes para o estudo da biota marinha envolvendo pesquisadores e alunos de inúmeras instituições. Muitos desses cientistas geram uma grande quantidade de imagens no desenvolvimento de suas pesquisas. Além disso, as disciplinas e cursos ministrados no CEBIMar são também uma fonte inesgotável de organismos para registrar em fotos e vídeos aspectos de sua morfologia e comportamento, desde os mais comuns até aqueles relativamente raros. Por fim, o trabalho de especialistas em variados grupos taxonômicos que visitam o Centro contribui frequentemente com imagens, ideias e materiais para serem documentados. No CEBIMar, estas imagens não servem apenas para ilustrar artigos científicos ou aulas, mas também para a divulgação e educação científica. No entanto, apesar da vasta quantidade de imagens gerada, apenas uma pequena parcela acaba sendo utilizada em atividades didáticas, publicada em periódicos especializados ou estampada em folhetos e outros materiais de divulgação. Milhares de imagens com ótimo potencial para a divulgação científica nunca seriam publicadas ou divulgadas de alguma forma. Com o intuito de aproveitar esse material é que concebemos o banco de imagens Cifonauta. É uma maneira que encontramos de compartilhar informações científicas por meio de imagens e de mostrar a beleza e diversidade da vida marinha.

2 – Quais os públicos alvo da iniciativa?

Nossa intenção é que o Cifonauta seja utilizado como plataforma para divulgação científica na área e torne-se uma fonte confiável para professores e estudantes em geral e para todos aqueles interessados nos seres que habitam os oceanos e mares. Mas a ideia é atingir e atrair também um público muito amplo, que não necessariamente tenha conhecimentos de biologia ou algum interesse de pesquisa específico. Tentamos criar uma plataforma fácil de ser acessada, que possibilite, por exemplo, a simples contemplação de imagens ou a pesquisa por meio de expressões populares, como água-viva ou estrela-do-mar, termos tão bem conhecidos da grande maioria das pessoas. Nesse sentido, criamos algumas coleções de fotografias agrupadas por temas numa sessão que denominamos Tour (https://cifonauta.cebimar.usp.br/tours/). No momento, estão disponibilizados cinco tours, cada qual reunindo as mais informativas e mais interessantes imagens presentes no banco sobre plâncton, águas-vivas, larvas de organismos marinhos, e o desenvolvimento embrionário da bolacha-do-mar. O quinto tema é diferente; ele aborda especificamente um local biológica e ecologicamente muito importante do Litoral Norte do estado de São Paulo, a baía do Araçá, que está ameaçado pela ampliação do porto de Sebastião, mas que tem uma biota riquíssima e única em nosso litoral, e que vem inclusive sendo estudada por um projeto temático financiado pela FAPESP (https://internet.aquila.fapesp.br/agilis/publico/; veja informações também em https://agencia.fapesp.br/18668). Nossa intenção é criar sempre novos tours, conforme a disponibilidade de imagens e de acordo como interesse do nosso público.

3 – Uma das características do Banco que me chamou a atenção foi a escolha da licença de Creative Commons (Uso não-comercial / Compartilhamento pela mesma licença 3.0). Gostaríamos de saber mais sobre as discussões e o processo de escolha desse tipo de licença para as imagens do Banco. E também como isso foi recebido pelos colaboradores, especialmente os autores das imagens.

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Beatriz Cunha, Gustavo Fonseca, Simone Brito, Viviani Vieira. Nematoda. Banco de imagens Cifonauta. Disponível em: https://cifonauta.cebimar.usp.br/photo/13258/ Acesso em: 2014-04-21.

O intuito de uma licença de direito autoral flexível é maximizar a utilização das imagens para divulgação científica e outros fins educativos. Ela permite que qualquer pessoa use as imagens sem necessidade de pedir autorização para o autor, desde que os termos da licença sejam seguidos. No caso, a licença CC BY-NC-SA 3.0 requer que o autor seja mencionado junto à imagem e que esta não seja usada para fins comerciais (por exemplo, no caso de um livro a ser vendido). Fornecemos um modelo de citação para cada imagem que é frequentemente utilizado para atribuição.

A maior preocupação dos autores envolve o uso comercial indevido. No entanto, o fato das imagens serem reduzidas e otimizadas para a web, conterem a marca d’água do Cifonauta e serem disponibilizadas sob uma licença não comercial assegura maior tranquilidade. Instituir uma licença convencional (“todos os direitos reservados”) inibiria severamente o potencial de divulgação do material, um dos objetivos do site. Nunca observamos o uso indevido das imagens do banco de maneira que fosse preciso intervir.

Esta licença flexível serve de base para a reutilização das imagens, mas como os direitos autorais das imagens no Cifonauta pertencem aos próprios autores, qualquer pedido de utilização que não se encaixe na licença (como o uso comercial) é encaminhado ao autor.

De certo modo, a licença CC BY-NC-SA ainda é restritiva. Ela não é compatível com a Wikipédia, onde os materiais não podem ser licenciados sob cláusula não comercial. Idealmente gostaríamos que as imagens estivessem livres para o uso na Wikipédia, pois aumentaria enormemente o alcance da divulgação e seria uma grande contribuição para a Wikipédia. Mas ainda estamos estudando uma maneira de implementar este feito sem alterar a segurança dos autores.

4 – Embora o foco das imagens seja para a divulgação científica, há a possibilidade de uso para estudos taxonômicos (ou outros)?

Beroe ovata
Alvaro E. Migotto. Ctenóforo. Banco de imagens Cifonauta. Disponível em: https://cifonauta.cebimar.usp.br/photo/7823/ Acesso em: 2014-04-21.

Existe sim essa possibilidade. Como os dados agregados às imagens são quase sempre fornecidos ou revisados por um especialista, as informações taxonômicas podem servir de referência para a identificação de exemplares por comparação, a geolocalização pode ser utilizada para análises de distribuição, e assim por diante. Muitas das imagens contêm informações complementares importantes sobre os organismos retratados, como cor, aspecto e postura geral em vida, comportamento etc., que podem ser úteis para os taxonomistas e especialistas em outras áreas. Mas é claro que esse tipo de inferência deve ser feito apenas por quem conhece bem o assunto, pois tirar conclusões apenas através de imagens pode facilmente induzir alguém a erro.

Temos também de destacar que a classificação taxonômica utilizada no Cifonauta é baseada somente no ITIS (Integrated Taxonomic Information System – https://www.itis.gov/), uma plataforma idealizada para fornecer informações consistentes e confiáveis sobre a taxonomia das espécies biológicas como um todo, mas que nem sempre está atualizada com as mais recentes descobertas taxonômicas.

Uma possibilidade de utilização científica interessante é a de o Cifonauta se tornar um repositório de imagens adicionais de artigos científicos. Atualmente, muitas revistas científicas aceitam a inclusão de arquivos com informações suplementares ao artigo científico propriamente, que funcionam como apêndices ou anexos ao texto principal (tabelas, links, fotos, vídeos etc.). Esses anexos ficam disponíveis no site da revista ou em outros sites. Recentemente nós tivemos uma primeira experiência nesse sentido. Um artigo publicado no periódico Zootaxa (https://dx.doi.org/10.11646/zootaxa.3710.2.1) por dois pesquisadores ligados ao CEBIMar, descrevendo 22 espécies novas de briozoários marinhos, incluiu 40 videoclipes, de 10 dessas espécies, como material suplementar disponível no Cifonauta (ver parágrafo final da sessão Material & Methods: “Videos of living specimens were deposited at the Cifonauta: Marine Biology Image Database” e também o exemplo https://cifonauta.cebimar.usp.br/video/517/. Uma reportagem completa sobre esse paper está disponível na Revista Pesquisa FAPESP: https://revistapesquisa.fapesp.br/2013/12/18/planeta-areia/).

5 – E os planos atuais e futuros?

Carybdea sivickisi
Alvaro E. Migotto. Cubozoário. Banco de imagens Cifonauta. Disponível em: https://cifonauta.cebimar.usp.br/photo/3285/ Acesso em: 2014-04-21.

Melhorar a performance do site, otimizar o fluxo de trabalho para inclusão e edição de imagens. Facilitar a integração de novos colaboradores, criar a “Application Programming Interface” para que os dados das imagens estejam disponíveis para reuso por outros bancos de dados e atrair novos colaboradores são alguns dos nosso planos.

6 – Quais seriam as sugestões para outros pesquisadores interessados em construir iniciativas semelhantes?

É importante definir a estrutura do banco de dados e o funcionamento do programa antes de começar o desenvolvimento. Isto tornará o processo de programação mais simples e previsível. Ressaltamos também que o código do cifonauta é aberto para reuso e pode ser usado como ponto de partida para outros projetos.

7 – Para finalizar, gostaríamos de saber mais sobre uso das imagens, o público alcançado e a cooperação dos pesquisadores para a montagem do Banco.

O Cifonauta foi lançado oficialmente em 26/09/2011. Desde essa data, tivemos mais de 127 mil visitantes e cerca de 450 mil visualizações de páginas. Atualmente acessam o Cifonauta cerca de 100 visitantes únicos por dia. É um número relativamente grande, que acreditamos deva crescer conforme novos colaboradores são atraídos e novas imagens são incluídas no banco. Picos de acesso ocorrem quando há alguma divulgação do site na mídia. Por exemplo, no dia 28/09/2011, logo após o lançamento do Cifonauta, saiu uma matéria na Revista FAPESP que repercutiu muito na mídia (https://revistapesquisa.fapesp.br/2011/09/28/divulgar-e-preciso/), fazendo com que o número de visitantes pulasse de cerca de 140-225 nos dias 17-18/10/2011 para quase 4.700 no dia 19/10/2011, o que congestionou o site, mas nos deu uma ideia do potencial de divulgação que tínhamos em mãos!

Monotheca margaretta
Alvaro E. Migotto. Hidróide. Banco de imagens Cifonauta. Disponível em: https://cifonauta.cebimar.usp.br/photo/1355/ Acesso em: 2014-04-21.

Cerca de 87% dos acessos têm origem no Brasil, mas temos também um público razoavelmente grande de pessoas no exterior, sobretudo Portugal e EUA. Como o banco contém várias imagens únicas de alguns organismos, uma busca na internet sobre esses organismos quase certamente vai indicar alguma imagem do Cifonauta. É o caso, por exemplo, da água-viva Turritopsis nutricula, uma espécie que recentemente esteve em alta na mídia por ser considerada “imortal”. Trata-se de uma espécie pouquíssimo retratada em fotos e vídeos, e o Cifonauta contém 55 fotos e 6 vídeos de ambas as fases de vida desse animal (pólipo e medusa, incluindo a medusa jovem e adulta) (https://cifonauta.cebimar.usp.br/taxon/turritopsis-nutricula/), o que faz com que algumas dessas nossas fotos estejam espalhadas em vários sites de notícias, de divulgação científica, blogs etc. Recebemos também muitos pedidos para reprodução em revistas e algumas produtoras internacionais solicitaram licença para que os vídeos dessas medusas fossem utilizados em documentários.

Cifonauta | banco de imagens de biologia marinha
https://cifonauta.cebimar.usp.br/

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