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Fogo e Geada: Como Distúrbios Naturais Protegem os Campos Úmidos do Cerrado

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Estudo revela que o frio extremo e os incêndios atuam como barreiras essenciais contra o avanço das árvores sobre os campos, alertando que as mudanças climáticas podem transformar os ecossistemas abertos.

No Cerrado, florestas de galeria e campos úmidos costumam dividir o mesmo ambiente, formando um mosaico de paisagens sob o mesmo clima. A ciência sempre buscou entender o que exatamente impede que as árvores simplesmente avancem e transformem as planícies herbáceas em florestas. Um estudo recente publicado na revista Plant Ecology demonstra que a resposta está em dois fenômenos frequentemente vistos apenas como destrutivos: a geada e o fogo.

Ao invés de meras catástrofes, esses distúrbios funcionam como controladores naturais da densidade arbórea. “É comum pensar que fogo e geada são sempre prejudiciais, mas isso depende do ecossistema”, explica Jonathan Ribeiro, autor principal do estudo. “Nos campos úmidos do Cerrado, esses eventos fazem parte da dinâmica natural e ajudam a manter a paisagem aberta. As plantas desses ambientes são adaptadas à alta luminosidade e rebrotam rapidamente após esses distúrbios”, complementa.

Sem eles, as áreas abertas do Cerrado, essenciais para a manutenção da biodiversidade e para o fornecimento de água, correm o risco de desaparecer. “Sem incêndios e geadas, as árvores tendem a avançar, aumentando o sombreamento e prejudicando espécies de plantas pequenas que dependem de ambientes abertos. Assim, esses distúrbios naturais ajudam a conservar uma flora altamente especializada”, destaca o pesquisador.

O Gargalo Demográfico

Para testar como as árvores reagem ao tentar invadir os campos úmidos, pesquisadores da Unesp, da Unicamp e do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) realizaram um experimento na Floresta Estadual de Assis, no interior de São Paulo. Eles plantaram mudas de três espécies nativas, uma exclusiva de matas de galeria (guanandi), uma generalista (peito-de-pomba) e uma típica de savanas secas (jatobá-do-cerrado), na área de transição úmida. Cinco meses após o plantio, o local foi atingido por geadas. Três anos depois, a área passou por uma queima prescrita.

Os pesquisadores observaram que a geada e o fogo impõem um “gargalo demográfico” às jovens árvores. A geada reduziu a altura das plantas, matando folhas e parte do caule, enquanto o fogo causou o topkill, que é a morte de toda a biomassa aérea da planta (folhas e caules). Isso obriga as espécies arbóreas a gastarem suas reservas de energia para rebrotar desde a base, atrasando o crescimento e a expansão da floresta. Segundo a pesquisa, as árvores jovens podem levar até quatro anos apenas para recuperar a altura que tinham antes da geada.

A Surpresa do Jatobá e a Falta de Oxigênio

Jatobá rebrota após fogo. Foto: Jonathan Ribeiro

O experimento também revelou como as características de cada espécie interagem com os distúrbios. Historicamente, a literatura científica tem apontado que árvores de savana são altamente tolerantes ao fogo devido à casca grossa e às reservas subterrâneas, enquanto as espécies de floresta são mais vulneráveis. No entanto, em campos úmidos, os resultados contrariaram essa expectativa. O jatobá-do-cerrado, espécie de savana, registrou a maior taxa de mortalidade após a passagem do fogo (45%), superando as perdas da espécie de mata de galeria (22%).

O artigo aponta que a explicação está no solo encharcado. Jonathan esclarece a mecânica por trás dessa vulnerabilidade: “O jatobá-do-cerrado, assim como muitas árvores das savanas, é reconhecido por sua resistência ao fogo em áreas bem drenadas. Nos campos úmidos, porém, o solo encharcado reduz a disponibilidade de oxigênio para as raízes e o jatobá não tolera essa condição”, detalha o autor.

Segundo ele, nessas condições a planta perde grande parte da capacidade de realizar fotossíntese. “Com menos energia para se recuperar após a queima, a mortalidade aumenta. Isso explica por que a combinação entre encharcamento e fogo dificulta muito mais o estabelecimento desta espécie do que em uma savana típica”, afirma o pesquisador.

Por outro lado, o jatobá foi a espécie que sofreu o menor dano estrutural durante a geada. Uma hipótese para explicar esse resultado é que, como as plantas de savana são adaptadas a longas secas e possuem sistemas resistentes à embolia (o bloqueio do fluxo de seiva), elas acabam tolerando melhor também o congelamento, cujos efeitos fisiológicos são muito semelhantes aos da falta de chuva.

O Risco de uma Mudança de Bioma

A descoberta acende um alerta sobre o futuro das áreas de transição floresta-campo no Cerrado. O artigo destaca que o aquecimento global projeta uma redução na ocorrência de geadas. “No Cerrado, as geadas são relativamente comuns apenas na porção sul de sua distribuição, como no estado de São Paulo”, pontua Jonathan. Ele alerta para o que está por vir: “A redução da frequência das geadas, em combinação com a supressão do fogo, pode favorecer o avanço da vegetação lenhosa sobre os campos úmidos. Esse processo pode reduzir a extensão dos campos abertos e levar à perda de espécies da flora e da fauna que dependem exclusivamente desse ambiente, resultando em uma paisagem menos diversa e mais homogênea.”

Campo úmido, cinco meses após o fogo. Foto: Jonathan Ribeiro.

A consequência direta recai sobre as políticas ambientais, que historicamente adotaram a regra do “fogo zero”. Para Jonathan, os dados da pesquisa exigem uma nova mentalidade de manejo integrado, o que não deve ser confundido com a liberação de queimadas irregulares. “Isso não significa defender queimadas indiscriminadas, mas sim o uso do fogo de forma planejada e baseada em conhecimento científico”, argumenta. “A realização de queimas prescritas, em condições climáticas e épocas previamente definidas, é uma estratégia que pode reduzir o acúmulo de material combustível e diminuir o risco de incêndios de grande intensidade, protegendo tanto a biodiversidade quanto as pessoas.”

Se essa dinâmica natural for suprimida e a floresta invadir o campo, a perda de serviços ecossistêmicos hídricos, especialmente, afetará toda a sociedade. A transformação dessas planícies ameaça diretamente a regulação da água. “Os campos úmidos desempenham papel fundamental na regulação das águas subterrâneas e superficiais do Cerrado. Eles favorecem a infiltração de água durante o período chuvoso e contribuem para recarregar as reservas subterrâneas e para manter a vazão de nascentes e cursos d’água ao longo do ano”, explica Jonathan.

A vegetação florestal altera severamente esse equilíbrio hidrológico devido à alta evapotranspiração. “Com a invasão de árvores, uma parcela maior da água armazenada no solo retorna à atmosfera, favorecendo o ressecamento gradual dessas áreas úmidas. Como consequência, diminui a capacidade desses ecossistemas de regular a disponibilidade de água, um serviço essencial para a segurança hídrica”, conclui o pesquisador.

Projeto Biota Campos

O estudo foi desenvolvido por pesquisadores da Unesp, da Unicamp e do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA). Financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), a pesquisa faz parte do projeto Biota Campos, um amplo esforço científico focado em ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade e a dinâmica dessas paisagens no estado de São Paulo, fornecendo bases técnicas para a conservação e o manejo de ecossistemas abertos.

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