Você tem fome de quê?

A biodiversidade alimentar como elemento estratégico para a conservação e uso sustentável da biodiversidade.

O cenário atual indica que a alimentação no mundo globalizado está cada vez mais homogenizada e com reduzido número de espécies vegetais e animais no cardápio humano. Atualmente, três grãos são responsáveis por 60% da ingestão de calorias humana Para a diversidade de plantas animais e outros organismos utilizados para alimentação, incluindo os recursos genéticos intra e inter específico existentes em um dado ecossistema dá-se o nome de biodiversidade alimentar (FAO, 2010). A biodiversidade alimentar pode ser considerada o ponto de encontro entre biodiversidade e nutrição. Invariavelmente, este tema está fortemente aderido às questões que abrangem a biodiversidade agrícola.

(c) Luis A. Florit
(c) Luis A. Florit
(https://luis.impa.br/photo/00_flores.html#emilia)

A variedade biológica que existe entre as lavouras, animais e outros organismos utilizados para a alimentação e agricultura desempenham um papel importante na oferta da diversidade de nutrientes necessários para a manutenção da vida, sobretudo, humana. “Hoje está claro que a dieta pouco diversificada tem contribuído para o avanço de doenças crônicas não transmissíveis.”, afirma a pesquisadora Deborah Bastos. A diversificação de alimentos no prato contribui positivamente para o estado de saúde do ser humano. Esta é mais uma das razões pela qual a biodiversidade pode ser considerada um elemento estratégico, neste caso, pelo aspecto da segurança alimentar e da saúde humana.

Entretanto, a diversidade de espécies de interesse agrícola está cada vez menor. As causas dessa redução advém das pressões ambientais, práticas inadequadas de manejo da terra e mudanças nos  padrões alimentares associado ao estilos de vida das pessoas. De mãos dadas com perda da variabilidade agrícola está o desaparecimento do conhecimento tradicional associado à preparação, armazenamento e uso cultural destes alimentos, o que, no passado, enchia o prato nas dietas locais. “Os temas que abrangem a conservação da biodiversidade alimentar são bem amplos, pois envolvem questionamentos a cerca da produção de alimento, do modelo da revolução verde, da devastação das florestas, do avanço da ocupação sobre os biomas, das mudanças climáticas, da perda de recursos genéticos nativos, perda do conhecimento tradicional e de que forma a ampliação da diversidade alimentar pode contribuir positivamente para a conservação da biodiversidade e da nutrição”, afirma Bastos.

As discussões acerca da importância deste tema estão ganhando espaço nas agendas internacionais. A FAO (Food and Agricultural Organization of th United Nations) mantém o International Network of Food Data Systems (INFOODS). Trata-se de um banco de dados de alimentos da biodiversidade, com uma coleção de dados da literatura publicada ou não. Outra iniciativa multi-lateral é The Biodiversity for Food and Nutrition Project, liderado pelo Brasil, Quênia, Sri Lanka e Turquia, financiado pelo Global Environment Facility (GEF), cujo objetivo é melhorar a conservação e uso da biodiversidade agrícola para alimentação e nutrição, fornecendo evidências e ações de sensibilização para o valor nutricional dessa diversidade e sua importância para alimentação por meio de abordagens que visam combater a desnutrição.

Como uma das colaboradoras destes projetos, está a pesquisadora da Faculdade de Sáude Pública/USP, Dra. Deborah Helena Markowicz Bastos, que desenvolveu a pesquisa “Valor nutricional e propriedades funcionais de espécies espontâneas encontradas no Brasil” no âmbito Programa Biota. Muitas das espécies espontâneas são consideradas espécies invasoras de culturas, como o dente-de-Leão e o picão-preto, entre outras. Algumas espécies espontâneas podem ser boas fontes de nutrientes e de compostos bioativos e hoje estão praticamente negligenciadas. Neste sentido, o objetivo do projeto foi de determinar a composição centesimal e de ácidos graxos, avaliar algumas propriedades funcionais e avaliar a aceitação de alimentos de origem vegetal. As espécies estudadas foram mandacaru (Cereus jamacaru), figo-da-índia (Opuntia ficus-indica), uva-do-japão (Hovenia dulcis), jambú ou agrião-do-pará (Spilanthes sp), serralha (Sonchus oleraceus L), serralinha (Emilia sonchifolia L.), dente-de-Leão (Taraxacum officinalis Weber), o picão-preto (Bidens pilosa L), o jenipapo (Genipa americana), juazeiro (Ziziphus joazeiro) e a carambola (Averrhoa carambola).

Na busca de novas alternativas nutricionais na flora “marginal”, a pesquisadora espera contribuir com elementos para se discutir uma “nova revolução verde, mas para outra direção, na qual modelos inovadores não avancem mais nos biomas e seja capaz de produzir alimentos nutricionalmente ricos”.

Sobre a participação no Programa Biota, a pesquisadora relata: “curiosamente não encontrei muitos interlocutores no âmbito do Programa. Entretanto, a participação no Biota deu visibilidade para o tema da pesquisa e abriu porta para participar de projetos de caráter internacional”.

(por Paula Drummond de Castro)

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